A leste de Kiev, nada de novo. Donbass prepara-se para a mãe de todas as batalhas

O antigo piloto da Força Aérea britânica Sean Bell faz a pergunta e lança a resposta. “Por que motivo Donbass? Há três razões principais”, disse em declarações à Sky News, passando de imediato a explicá-las. “A Rússia investiu durante os últimos dez anos numa insurgência naquela região e estará ansiosa para concluí-la. Em segundo lugar, todas as linhas de abastecimento serão muito mais fáceis de trazer da Rússia — sejam tropas, combustível, armas, material”, argumentou, lembrando que a coluna militar de 64 quilómetros, que ficou parada nas estradas ucranianas, não teria esse problema ali.

O último ponto tem a ver com o poder aéreo. “Ainda não vimos o poder aéreo russo muito envolvido no combate na Ucrânia. E isso deve-se ao facto de que a Ucrânia têm conseguido abatê-los com sucesso. Mas, mais perto da fronteira russa, estarão mais confiantes e veremos mais poder aéreo dos russos a ser utilizado”, argumentou Sean Bell que para Mariupol não vê solução à vista. “Vão continuar as lutas. A situação está muito sombria.”

Falando ao Observador sobre o futuro da batalha, Michael Clarke é cauteloso. “Os russos têm mais números que podem trazer e têm mais poder de fogo — mais artilharia, mais rockets, e por aí fora. Se eles forem fazer isto bem, o facto de os ucranianos se terem saído tão bem no primeiro mês não quer necessariamente dizer que os russos vão perder no terreno. Eles podem atolar a Ucrânia com forças militares”, diz, se continuarem com o conflito durante vários meses.

Para Sean Bell, o que ainda não está na mira dos russos é Odessa, a cidade banhada pelo Mar Negro e onde, a 3 de abril, uma refinaria foi atingida por mísseis — essa terá sido uma mensagem estratégica para lembrar o Ocidente de que a cidade está ao seu alcance. “Odessa ainda será uma ambição, mas não no curto prazo”, diz, lembrando que está demasiado longe da zona onde os russos estão focados no momento. “Mas vamos ser muito claros: militarmente, os russos são dez vezes maiores, se focarem os seus esforços num pequeno pedaço de terra isso tornará a vida muito difícil para as forças ucranianas. Acho que ainda estamos para ver todo o poderio russo nesta batalha. Até que os objetivos ​​de Putin sejam alcançados não vamos ver negociações significativas.”

Quanto ao primeiro alvo provável, a resposta vem do think tank Institute for the Study of the War, que diariamente disponibiliza um relatório sobre o estado das operações. A conclusão do dia 6 de abril, 42.º dia da guerra, é que os russos irão tomar Sloviansk. “Os esforços das forças russas que avançam a partir de Izyum para capturar Sloviansk serão provavelmente a próxima batalha crucial da guerra na Ucrânia”, lê-se no documento, onde os analistas preveem que esse conflito vá acontecer nos próximos dias.

Izium está na província de Kharkiv, que faz fronteira com a região de Donbass, onde se encontra Sloviansk, cidade com 100 mil habitantes. Kramatorsk, onde os russos bombardearam uma estação de comboios a partir da qual refugiados procuravam abandonar o país, fica a 25 quilómetros de Sloviansk.

Outro dado importante, ​​no relatório seguinte, do 43.º dia, é que os analistas daquele think thank acreditam que “as forças russas provavelmente completarão a captura de Mariupol nos próximos dias” — os russos já reclamaram tê-lo feito, mas o ISW não conseguiu verificar essa informação. Em contrapartida, é “improvável que as unidades danificadas redistribuídas do nordeste da Ucrânia permitam um avanço russo bem-sucedido”, e as forças ucranianas repeliram os contínuos ataques russos de Izyum a sudeste em direção a Slovyansk e Barvinkove. “As sanções ocidentais provavelmente interromperam com sucesso a base militar-industrial da Rússia.”

Um dos analistas militares que explica o movimento de pinça é o norte-americano Mark Hertling, antigo comandante do Exército dos EUA. No Twitter, onde diariamente analisa os desenvolvimentos estratégicos da guerra, frisa que os russos irão reforçar as linhas da frente, e os flancos no Norte e no Sul, esperando realizar ataques frontais em Donbass enquanto cercam as forças ucranianas a norte e a sul.

O problema? A forma como a Rússia atua quando encontra um ponto fraco: “A sua doutrina é usar artilharia para aumentar o ponto fraco e, em seguida, enviar muitas forças de movimento rápido (isto é, tanques), segurando os flancos com outras forças”, tal como os alemães fizeram na Segunda Guerra Mundial com o blitzkrieg.

“Mas, pelo que tenho visto, a Rússia não treinou nem praticou este tipo de manobra”, diz o analista militar, frisando que não só as suas capacidades de executá-la são fracas como nunca tentaram o movimento de pinça durante os oito anos de conflito em Donbass.

O que deve a Ucrânia fazer? “Ser forte em todos os lugares (difícil de fazer); ter uma boa reserva (possível, mas também difícil); ser capaz de se mover rapidamente para combater qualquer ataque”, defende o militar. Para Mark Hertling, este terceiro ponto é fundamental: as tropas ucranianas têm de encontrar formas de ser muito móveis nesta nova fase da guerra.

“Primeiro, vão precisar de informações muito boas sobre para onde se deslocam as forças russas”, explica. Nesse momento, os tanques serão fundamentais. “A Ucrânia continuará a contar com armas tecnologicamente avançadas para fechar quaisquer lacunas na linha de frente e concentrar-se em derrotar a artilharia da Rússia.”

Além disso, termina o analista Mark Hertling, a Ucrânia não pode descurar a defesa da sua linha de abastecimento, enquanto tenta interferir com a logística russa. “A Ucrânia deve ainda lidar com assistência civil, catalogar crimes de guerra, combater ataques na Crimeia, Mykolaiv, Kharkiv, etc. Donbass será uma batalha de atrito. A Ucrânia está preparada para isso.”

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A leste de Kiev, nada de novo. Donbass prepara-se para a mãe de todas as batalhas

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