“Nenhuma sociedade aceita os crimes que cometeu no passado.” Grande entrevista a Abdulrazak Gurnah, Nobel da Literatura em 2021 – Expresso

Quando o seu nome foi pronunciado pelo porta-voz da Academia Sueca, poucos eram os portugueses que o conheciam. De resto, com dez romances publicados no Reino Unido — dois deles, “Paradise” e “By the Sea”, finalistas do Booker Prize —, a sua presença literária tem mantido um perfil discreto fora da língua inglesa. Mas isso está a mudar para Abdulrazak Gurnah: a mais importante consequência de ter recebido o Nobel da Literatura em 2021 é ver a sua obra sair do relativo anonimato em que se encontrava e ser finalmente traduzida para várias línguas pelo mundo fora.

Por cá, “Vidas Seguintes” (“Afterlives” no título original), o seu último livro, acabou de ser lançado pela Cavalo de Ferro. E a leitura remete-nos para uma temática na qual Gurnah tem perseverado desde que, nos anos 80, se tornou escritor. A colonização, a dominação, a conquista servem de cenário histórico para o retrato de como as vidas humanas foram e são afetadas, a existência diária, a construção da memória. E a noção do que é, devido a estes processos, ser-se refugiado, deslocado ou migrante, encontrar-se longe do lugar onde se nasceu. Neste caso específico, regressa-se a finais do século XIX e à colonização germânica na transição para o século XX, seguindo de perto a história de personagens abalroadas por uma guerra alheia.

Ser o quarto Nobel da Literatura negro em 120 anos — e o primeiro em mais de três décadas, além do primeiro tanzaniano de sempre — não é circunstância menor nem algo que este professor emérito da Universidade de Kent, especializado em literaturas pós-coloniais, não tenha ele próprio investigado. Nascido no antigo sultanado de Zanzibar (hoje Tanzânia), em 1948, Gurnah foi apanhado por uma revolução que cortava a sua vida a meio e o impedia de continuar a estudar. Emigrou aos 18 anos para o Reino Unido, e foi essa condição que o levou a começar a escrever. Ao Expresso falou desde a sua casa em Canterbury, Inglaterra, numa manhã de um quotidiano que, de repente, o prémio sueco modificou totalmente.

“Vidas Seguintes” é o seu último romance, publicado em 2020. Podemos dizer que é uma história sobre a dominação e sobre a vida possível neste cenário?

Sim, claro. O livro fala de dominação, porque fala da experiência da conquista colonial e do poder da autoridade colonial sobre pessoas que nada sabiam sobre ela e tiveram de submeter-se. Mas não foi apenas isto que o colonialismo fez. Em quase todas as situações, mesmo quando o colonialismo começou pelo comércio, como no caso da Índia britânica, mais cedo ou mais tarde o quadro evoluiu para uma imposição — com os europeus a sentirem-se fortes o suficiente para cessarem qualquer tipo de negociação. No período abordado no livro, finais do século XIX, as nações europeias tornaram-se tecnologicamente muito avançadas e não precisavam de negociar, sobretudo em África. Chegavam e conquistavam. Portanto, todo o processo colonial nesta fase foi uma tentativa de controlar e de dominar, e mesmo situações que não tinham sido assim de início, tornaram-se assim neste ponto. Sobretudo a colonização germânica. A Alemanha na altura era uma nação altamente militarizada, e bastante tardia no processo de aquisição de território. E a sua experiência de colonização foi, em geral, de conquista. Não havia desejo de mais nada além de mandar, controlar e conquistar. Por isso, tratou-se de uma experiência extremamente violenta. Todo o colonialismo europeu nesta altura o foi, e mesmo quando a letra da lei parecia estar por trás, isso não passava de um eufemismo daquilo que era na verdade uma invasão.

O livro deixa isso bastante claro. Mas nele existem também vidas que se erguem de novo, que se reconstroem.

A minha preocupação não foi voltar a contar a história dessa guerra, embora para mim fosse importante que o contexto ficasse claro. Guiou-me mais a vontade de descrever como estes acontecimentos afetaram a vida das pessoas, tanto das que participaram diretamente como das que os viveram na periferia — que não foram ‘atores’ num sentido estrito — e o que é que tudo isto lhes causou, fossem elas voluntárias, recrutadas, soldados ou apenas gente comum a tentar continuar com a sua vida. Então, o romance é sobre como todas estas pessoas lidaram com isso e como se reconstruíram, ou não, a partir dali.

A pergunta seria: pode haver felicidade num cenário de dominação?

Nessa circunstância, a felicidade é só possível para aqueles que têm sorte, ou que sobrevivem, ou a quem se lhe apresenta uma oportunidade e não a deixa escapar. Ou seja, quem foi apanhado no meio deste processo não teve grande hipótese de escolha. Porém, sobreviver não significa ser-se capaz de encontrar a felicidade. A felicidade requer mais um impulso, requer determinação, uma atitude assertiva, que transforme coisas simples em benefícios.

Muitos dos seus romances — como o primeiro, “Memories of Departure”, de 1987 — tocam no tema da emigração, do exílio e da mudança. Após todos estes anos, o que é que o empurra a perseverar nesta temática?

Também escrevo sobre outras coisas. Mas é um facto que volto sempre a estes assuntos. Porquê? Talvez por ser essa a minha experiência, e de alguma forma, quando se escreve, escreve-se sobre o que se conhece. Outra razão é este ser um dos grandes fenómenos dos nossos dias: há milhões de pessoas em processo de desarraigo, de deslocação e de mudança da sua vida para outro lugar. Claro que não se trata de um fenómeno novo. O novo aqui é as pessoas via­jarem do sul para o norte do planeta. Isso é novo. E a distância que percorrem é imensa, não apenas em termos de quilómetros, mas de cultura, de língua, por vezes de religião, de visão do mundo. São movimentos tremendos, enormes, e escondem muitos ângulos e perspetivas. Escrevo sobre como as pessoas pensam na vida que seguiram e se lembram do que deixaram para trás. Por isso, na verdade, não estou a voltar sempre ao mesmo tema, mas a olhar para ele de modos diferentes. Em alguns casos abordei os tempos contemporâneos, ou, como em “Vidas Seguintes”, o século passado. E ainda há que chegue para escrever o próximo livro!

O livro situa-se no início do século XX, mas há aspetos que permanecem presentes hoje em dia: a crise humanitária dos refugiados, a história (infindável) das guerras.

E não só: também as infindáveis consequências do colonialismo. Todas estas deslocações, toda a violência da qual as pessoas fogem, as guerras na Síria, no Afeganistão, no Iraque, no Curdistão, estão relacionadas intimamente com o colonialismo. Com efeito, as do Iraque e do Afeganistão são guerras do Ocidente — e até certo ponto a da Síria também o é. Mas há outra grande consequência do colonialismo, tanto no Médio Oriente como em África, que é a questão das fronteiras, do modo como as fronteiras foram desenhadas por estrangeiros segundo a sua exclusiva conveniência. Muitas das guerras do presente têm a ver com essa instabilidade das fronteiras: no Iraque, no Afeganistão e em tantos outros lugares existem nações apenas construídas no mapa e hostilidades que se prolongam há décadas. O mesmo é verdade para as guerras em África: um grande número delas tem a ver com fronteiras que são indefensáveis, porque a população não as quer. Falamos da Etió­pia, da Somália, do Sudão, só para citar alguns.

“Os quenianos não combatiam no Quénia. Assim, cada exército via os outros como inimigos, e não como semelhantes, como africanos. A noção de se ser ‘africano’ deixava de existir”

Isso leva-me a um outro aspeto do seu livro, a alteração total da ordem social existente por parte das potências coloniais.

Sim, claro. Isso é o que qualquer autoridade dominante quer fazer: tomar conta, e para tomar conta é preciso assegurar-se que não há concorrentes ao poder — ou seja, que mais ninguém, sobretudo alguém local, apareça a dizer: “Eu é que faço as regras aqui.” Não pode haver concorrentes ao controle do poder colonial. Para conseguir isto, é necessário perturbar ou mesmo romper qualquer tipo de ordem ou de quotidiano que exista, impedir que as pessoas vivam como escolheram, e impor que adotem a vida que o invasor planeou para elas. E se não querem, há que forçá-las, e para isso mudar totalmente as suas prioridades. Passam a trabalhar em prol de uma sociedade que não é a delas nem se importa minimamente com elas. Isto inclui trabalho escravo, a introdução de impostos em sítios onde não havia nada semelhante. Então, têm de trabalhar e de pagar impostos, e para quem é que haviam de trabalhar senão para o novo poder? Há muitas formas de apropriar-se da vida das pessoas, de lhes tirar a vida: não apenas ditando-lhes as regras mas também dizendo-lhes como devem viver e fixando as suas prioridades.

E quando a ‘prioridade’ é as pessoas travarem uma guerra que não é delas?

Isso também é importante. Tal como é contado no livro, mas para além dele, muitas das guerras fora da Europa — e pela Europa — foram travadas pela população colonizada. Os indianos lutavam pelos britânicos, os africanos em geral por esta ou aquela potência, por vezes muito longe dos seus próprios territórios. Faz-nos interrogar por que o fizeram. Como é que não conseguiram ver que estavam a lutar ao lado dos seus próprios dominadores? Claro que as respostas são mais complicadas do que parece, porque o poder das forças colonizadoras outorgava uma espécie de prestígio, o que funcionava como uma atração. Muitas vezes, juntar-se a elas significava juntar-se ao poder, partilhar o poder das forças dominantes do momento. Esta é uma das razões. A outra prende-se com a pressão exercida sobre os líderes dos grupos sociais: “Precisamos de 20 pessoas do teu grupo, caso contrário iremos buscá-las e tu sofrerás outras consequências.” Era desta forma que os exércitos cresciam. Por outro lado, os soldados não eram postos a combater a sua própria gente — por exemplo, os nigerianos lutavam em Tanganica e os quenianos na Birmânia. Os quenianos não combatiam no Quénia. Assim, cada exército via os outros como inimigos, e não como iguais, como africanos. A noção de se ser ‘africano’ — no sentido de alguém semelhante, que partilha uma história semelhante — deixava de existir.

Como académico do pós-colonialismo, pensa que a Europa tem verdadeira consciência do que fez em África durante a colonização? Ou os europeus ‘normalizaram’ este lado da História?

Não creio que tenham verdadeira noção. Evidentemente há académicos, historiadores e até políticos que compreendem bem o processo, e que estão a produzir sobre ele uma investigação profunda e cuidada. Mas isso não acontece na chamada ‘consciência popular’, no conhecimento comum e exterior à academia, mesmo tratando-se de pessoas inteligentes. Neste campo, não creio que tenha sido feito o suficiente. O esforço de algumas pessoas por conhecer e informar-se está, por outro lado, toldado por uma certa defensividade perante o tema; no fundo, nenhuma sociedade aceita bem os crimes que cometeu no passado. Em Inglaterra, nos Estados Unidos ou na Alemanha — não sei se acontece em Portugal — ficou na moda esta espécie de ‘guerra de ‘culturas’, em que se deitam abaixo ou desfiguram estátuas de figuras que representam o colonialismo. Isto demonstra que há um entendimento, uma compreensão. Mas ainda persiste uma grande negação, um não querer ver.

Em Portugal, há uma tendência para pensar que o colonialismo praticado foi mais ‘suave’ do que os outros, mais aceitável.

Bom, os britânicos pensam o mesmo, assim como, provavelmente, os franceses. Existe sempre uma narrativa nacional que diz que as coisas não foram tão más como parecem. As pessoas tentam esquecer as partes negativas ou atrozes dessa narrativa, convertendo-as em aspetos secundários, marginais. A reposição das partes da história que são constantemente omitidas tem ocupado bastante tempo aos historiadores, mas é algo que também a ficção pode fazer, porque permite perceber a dimensão humana de um episódio histórico. Mesmo alguém que se recuse a ler sobre um tema específico pode ser seduzido pela ficção, que acaba por ser um caminho para descobrir as coisas. Não é necessário pegar num livro de História para tomar conhecimento da história — aliás, um romance pode suscitar um tipo de interesse que faça com que alguém queira ler um livro de História a seguir. Pelo menos é o que eu faço: se leio alguma coisa num romance sobre qual pouco sei e me interessa, quero saber mais sobre o tema. É um estímulo para ir mais longe.

Saí do meu país no meio de uma convulsão política, guiado por um sentimento egoísta. Queria algo diferente, como tantas pessoas que hoje arriscam a vida no Mediterrâneo”

A ficção pode então contribuir para preencher as lacunas da História?

Falaria mais de pontes do que de lacunas. Porque assumir a própria ignorância não é algo necessariamente malicioso — ignorância pode não significar não querer saber. Se alguém for ignorante e isso for assumido como algo a melhorar, pode ler, pode procurar. A ignorância não é uma sentença, nem uma condição inultrapassável.

Recebeu uma educação britânica colonial, e isso inclui o modo como os britânicos olhavam para o mundo e para pessoas na sua posição. Foi difícil desconstruir esta visão?

É algo que se faz lenta e gradualmente, lendo, aprendendo, ganhando experiência — também ensinando e pesquisando ao longo dos anos. Uma das lições de ter vindo para a Inglaterra foi perceber melhor como é que o país olha para alguém como eu. E quando o descobri quis falar às pessoas sobre isso, contribuir para as educar por meio do meu trabalho académico. Com a ficção é mais complexo, porque não se resume a educar ou a fazer pedagogia. É muito mais do que isso: é envolvê-las, levá-las a refletir e dar prazer. Que alguém leia e sinta: “Estou a desfrutar de fazer isto.”

Paulina Chiziane, escritora de Moçambique que em 2021 venceu o Prémio Camões, disse que a colonização foi bem sucedida: virou os africanos contra si mesmos e conseguiu que se autorrenegassem. O que pensa disto?

É uma forma interessante de colocar a questão, e de certo modo é verdade. Mas penso que será um problema geracional, de uma geração que cresceu e se formou num certo período histórico e vive a sua identidade desse modo. Não conheço em detalhe a experiência de Moçambique, mesmo que sejamos vizinhos — mas há vizinhos que não sabem nada uns dos outros! Mas não faria essa afirmação relativamente à geração do meu pai, por exemplo. Isto porque nós tivemos um colonialismo tardio, de finais do século XIX, e pessoas como o meu pai eram crianças no tempo em que a autoridade colonial se estabeleceu. Essa geração ainda tinha um grande orgulho em ser o que era. Já a minha geração, que foi a primeira a receber uma educação colonial, pode ter sentido isso. E mesmo assim não tenho a certeza da profundidade desse sentimento. Hoje, os jovens possuem uma visão mais globalizada do mundo, e têm alguns modelos que nós não tínhamos, como artistas pop, futebolistas, atores. Sabem que o mundo das celebridades não é só branco. Portanto, não penso que, de uma forma passível de ser generalizada, os africanos se tenham negado a si próprios e tenham que reencontrar-se. Considero que isso é um traço geracional e muito contextualizado.

Nasceu em Zanzibar e foi para a Inglaterra aos 18 anos. Podemos mesmo sair do local onde nascemos? Uma vez disse: “Sou de lá e lá vivo na minha mente.”

Não sei se realmente deixamos por inteiro o local onde nascemos. Não acredito que seja possível, mas claro que falo por mim. Penso que isso também depende da idade na qual partimos, porque há certas coisas que, passada certa idade, nunca mais se esquecem. No meu caso, fui-me embora a contragosto, sem o desejo de sair, como se alguém me estivesse a tirar dali. Não sendo um gesto de rutura, esforcei-me por reter tudo na memória. Além disso, sou um escritor, ou tornei-me um. E o escritor é inseparável das suas memórias. Ser um escritor deu-me a capacidade de manter vivas, na minha mente, as recordações do lugar e da vida do lugar. E voltei lá diversas vezes.

(Simone Padovani/Awakening/Getty Images)

A primeira vez foi 17 anos depois de ter saído. Como foi esse reencontro?

Foi aterrador. Dezassete anos é muito tempo. Não consegui voltar antes por razões que se prendem com o modo como me fui embora. Para já, sabia que a situação lá não se tinha alterado e não sonhava que isso viesse a acontecer. Portanto, num processo que é difícil de descrever ao pormenor, começa-se a construir uma nova vida. Carrega-se com um sentimento de culpa, mas continua-se em frente. Às tantas pus-me a estudar, formei uma família. E a vida muda tanto que nos tornamos pessoas diferentes. Pensamos que, se regressarmos, as pessoas vão olhar e dizer: “Não és a mesma pessoa, mudaste. Não és um de nós.” E perguntar: “Porque estiveste longe tanto tempo? Porque não escreveste mais cartas?”

Ser escritor era como ser um astronauta. Quando comecei a escrever, fi-lo para mim próprio. Com o tempo, percebi que ali havia alguma coisa. Não foi uma intenção de partida”

Ou, então: “Porque não ficaste e lutaste por nós”?

Bom, objetivamente, não poderia ter lutado, era demasiado novo. Mas de facto é o tipo de pensamento irracional que se tem, por ter quebrado uma irmandade numa fase de dificuldades. Saí do meu país no meio de uma convulsão política, guiado por um sentimento egoísta. Queria algo diferente para mim, como tantas pessoas que hoje arriscam as suas vidas a atravessar o Mediterrâneo. No fundo, saí porque tinha 18 anos, não sabia nada, era um idiota e só pensava em mim. A questão é que quando voltei lá nenhum dos meus receios se concretizou. Estavam felizes por me ver e eu estava feliz por vê-los.

Pode falar das circunstâncias do seu exílio, do modo como saiu?

A palavra ‘exílio’ — como a palavra ‘fuga’, muitas vezes utilizada — torna a minha emigração um drama maior do que na realidade foi. Penso no exílio de uma forma muito específica, enquanto situação de alguém que foi literalmente forçado a abandonar as fronteiras do seu país — banido — ou que sai motivado pelos seus princípios políticos. Que pensa: “Tenho de me ir embora porque corro perigo de vida se ficar, ou pelas minhas convicções, ou porque posso fazer mais contra o autoritarismo de um governo se sair.” Portanto, o exílio é uma questão de princípios. Eu não passei por nada disso, só desejava uma vida melhor. Queria continuar a estudar, e o impulso de sair foi ter a possibilidade de continuar a aprender e de ter outras perspetivas, de ir para a universidade. Para isso, arranjei a forma de obter os papéis necessários, o que não foi fácil — porque era ilegal. Tinha muito pouco dinheiro e não muitos miolos. E fui embora. Hoje penso que isso também teve a ver com uma certa imprudência própria daquela idade, em que estas coisas são vividas como uma absoluta necessidade e não se pode esperar. Porém, depois de o conseguir, as coisas não são lineares. Começamos a perceber o que deixamos para trás e que não podemos voltar, primeiro por ter desrespeitado a lei, mas também por não ter dinheiro, nem emprego, nem um ofício. E questionamos: “O que é que fui fazer?” Creio que é isto que acontece a muitos destes jovens, que hoje encontramos a vaguear pelas ruas da Europa.

O que ocorreu ao resto da sua família?

O meu irmão veio comigo, mas a maioria da família — pais, irmãs — ficou lá. E ainda lá estão, à exceção de uma irmã que casou e se mudou para o Dubai, e dos meus pais, que já faleceram.

Li que, para si, a escrita começou como uma necessidade de expressão dessa condição de se estar distante. Já se perguntou se teria sido escritor caso tivesse ficado no seu país?

A ideia de tornar-me um escritor não existia para mim: essa não era uma carreira possível no meu país, de acordo com o modo como fui criado. Não havia pessoas que o tivessem feito e cujos modelos pudéssemos seguir. Portanto, nem sequer era uma aspiração. Se eu não me tivesse ido embora, sinceramente não sei se teria seguido este caminho. Hoje o quadro é outro, e há muitos escritores novos tanto na Tanzânia como no resto de África. Mas, naquela altura, ser escritor era como ser um astronauta. Quando comecei a escrever, fi-lo para mim próprio, para compreender quem era e onde estava e de onde vinha, o que era isto de estar tão longe, de lidar com o preconceito — a Inglaterra não aceitava bem os imigrantes, em especial os africanos. Depois, com o tempo, percebi que ali, nesses textos, havia alguma coisa. Foi um olhar retrospetivo, e não uma intenção de partida.

E depois ganhou o Prémio Nobel.

É verdade, tive sorte [risos]. Prefiro dizer que o recebi, não que o ganhei. Caso contrário sugere-se uma competição que não existiu.

O que é que o Nobel representa para si, considerando que em 120 anos de história do prémio, e contando consigo, apenas quatro pessoas negras foram distinguidas?

Penso que é um sinal de uma consciência crescente e de um maior interesse na produção literária de pessoas não europeias. Não aconteceu antes porque esta produção, estes autores, têm sido negligenciados. Essa é uma explicação. Outra é existir a coincidência de, este ano, vários prémios importantes terem sido atribuídos a escritores de ascendência não europeia e mais precisamente africana — o Booker Prize, o Camões, o Goncourt. E vou dizer uma coisa que talvez possa soar irónica: se isto fosse mais do que uma coincidência, teríamos de aceitar que, de repente, os júris acordaram para coisas que antes não eram capazes de ver, o que diminuiria o poder da escrita em si mesmo. Prefiro pensar que estes prémios foram outorgados pela qualidade da escrita e não por um aumento de consciência dos jurados.

Talvez os escritores africanos estejam a tornar-se mais visíveis para o mundo editorial.

É possível, ou talvez as editoras estejam hoje mais abertas do que costumavam ser e isso por sua vez esteja a gerar uma maior ambição nos escritores. Até há alguns anos, apenas um número muito restrito de editoras se focavam na publicação do trabalho de autores africanos. Quando só há três ou quatro editores que apenas se concentram na literatura que para eles é aceitável, naturalmente o que chega aos leitores é uma pequeníssima parte do que se escreve no mundo. Havendo muitos mais, e estando mais abertos a correrem riscos, como hoje em dia, isso significa que qualquer pessoa — mesmo africana! — que apareça com uma ideia corajosa, aventureira, fora do comum ou inesperada pode encontrar um editor. Ao serem inovadoras e ao correrem riscos, as editoras encorajam os escritores a fazer o mesmo.

O Governo britânico cumprimentou-o pelo prémio?

Não. Tem outras preocupações: coronavírus, ‘Brexit’, festas… Mas o da Tanzânia deu-me os parabéns.

É a tal marca do país de origem, mesmo que seja cidadão britânico.

Essa é a questão, podermos ser cidadãos plenos das várias sociedades a que pertencemos. 55 anos depois de viver num país, continuamos a ser estrangeiros?

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